Conheci Pedro há três ou quatro semanas. Quando o vi, bastei trocar meia dúzia de palavras para medir minhas próprias palavras e tomar cuidado. Eis que eu tinha encontrado um vivo. Um gênio. Se existe um dom que eu admiro em mim mesma é de reconhecer gênios, pessoas acima de média, fora da curva, pessoas que farão a diferença no que quiserem fazer a diferença e é essa a definição de genialidade pra mim: conseguir ser muito significativo naquilo em que você se propor. As pessoas sempre esperam que os gênios descubram a cura para alguma doença ou sejam cientistas de física. Enfim, gênio é o Einstein, muitos acreditam, apesar de não saberem nada de teoria da relatividade e muito menos para que serve. Enfim.
Sei que quando o vi, o cataloguei como um vivo. E sabia que a vida não cabia nele. Sabia que ele mesmo não cabia em si mesmo. Gente que se transborda. Gente que se expande.
E aí que não conversamos. E aí que não nos tornamos amigos. E aí que nada. Como alguém que descobre outro igual no mundo, ele foi.
E então descubro que ele partiu. Pedro se foi. Perto dos seus 30 anos, ele deixou a todos nós. E daí que me indignei. Que fiquei com raiva. Que chorei. Chorei como não choro em morte de parentes. Colegas, até. Chorei porque me doeu alguém cheio de vida ser estupidamente levado pela morte.
Então pensei que a vida pode ser muito miserável quando quer. É que para deixar a vida como ela é: medíocre, para que persista o equilíbrio da mediocridade a cada 100 zumbis que se vão, um vivo tem que partir. E foi assim que Pedro partiu - ele era esse um.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
O cara do número 07
Shopping lotado. Fiz meu pedido e aguardei. Meu pedido era o número 11.
Anotei mentalmente: sou o número 11.
Impaciente. Vejo a mocinha com gorro monocromático andar de um lado a
outro preparando os pratos. Aperta um botão e no painel aparece: 07.
Fiquei esperando enquanto a luz piscava intermitente, 07..07..07. Ele não
vinha. Não podia, é certo, chamar a isso de mistério.
Não.
Conan Doyle não me perdoaria.
No entanto, o caso era curioso.
Onde está o número 07? Talvez caído em algum beco. No fundo de uma loja. Os pedaços cortados e separados em caixas de sapato tamanho especial.
Não.
Exagero.
Nem Tarantino pensaria em tanto sangue.
Ele não veio.
O prato esfriava em cima do balcão.
Não tive curiosidade em ver o pedido. Seria muito mórbido de minha parte ter apetite pelo prato do talvez falecido.
Me contive.
A mocinha do gorro monocromático não se importava. O prato esfriava. Será que ele esqueceu? Talvez, apressado e distraído, tenha feito pedido em outro lugar. Talvez tenha desistido.
Talvez esteja morto mesmo sentado em alguma mesa e ninguém notou. Certamente alguns adolescentes ririam do homem supostamente dormindo na mesa ao lado e seriam percorridos por um sentimento de predestinação quando assistissem o jornal do dia seguinte noticiando o encontro do corpo. Sussuriam para si mesmos: eu como um cheese burger do lado de um morto.
Fosse quem fosse o número 07, sem dúvida era homem. Meia idade. Coisa de feeling: eu sabia que era.
No painel aparece o número 11. Vou. Como e o número 07 não aparece. Saio pensando o que a mulher do gorro monocromático diria se eu voltasse no outro dia e perguntasse sobre o número 07.
Não.
Conan Doyle não me perdoaria.
No entanto, o caso era curioso.
Onde está o número 07? Talvez caído em algum beco. No fundo de uma loja. Os pedaços cortados e separados em caixas de sapato tamanho especial.
Não.
Exagero.
Nem Tarantino pensaria em tanto sangue.
Ele não veio.
O prato esfriava em cima do balcão.
Não tive curiosidade em ver o pedido. Seria muito mórbido de minha parte ter apetite pelo prato do talvez falecido.
Me contive.
A mocinha do gorro monocromático não se importava. O prato esfriava. Será que ele esqueceu? Talvez, apressado e distraído, tenha feito pedido em outro lugar. Talvez tenha desistido.
Talvez esteja morto mesmo sentado em alguma mesa e ninguém notou. Certamente alguns adolescentes ririam do homem supostamente dormindo na mesa ao lado e seriam percorridos por um sentimento de predestinação quando assistissem o jornal do dia seguinte noticiando o encontro do corpo. Sussuriam para si mesmos: eu como um cheese burger do lado de um morto.
Fosse quem fosse o número 07, sem dúvida era homem. Meia idade. Coisa de feeling: eu sabia que era.
No painel aparece o número 11. Vou. Como e o número 07 não aparece. Saio pensando o que a mulher do gorro monocromático diria se eu voltasse no outro dia e perguntasse sobre o número 07.
- Número 07? Nunca existiu número 07.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Para que a escrita nos salve
Porque escrever está ligado a caráter,
até. Não me parece possível que um babaca completo seja um escritor pois há
qualquer coisa de digno na escrita. A afirmação é deveras perigosa porque não
são poucos os escritores que foram estranhos, esquisitos, fracassados, que
deram provas de irremediável falta de caráter. E talvez a ambiguidade resida na
própria escrita pois não me parece tampouco que a escrita se eleve a esse grau olímpico.
A escrita é, por natureza, marginalizada (o simbolismo foi e sempre será o
calcanhar de Aquiles da literatura).
A falta de caráter é uma questão
apenas cultural.
A falta de caráter é apenas cultural?
Ser estranho, esquisito e
fracassado pode ser uma questão de prisma. O eterno “segundo quem?”. Seja como
for, que se cultive a escrita. As pessoas me parecem melhores quando escrevem.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Elephant Gun

Não que te esquecer adiantasse. Não. Esquecer-te só apagaria uma parte boa. Uma parte que faço questão de lembrar todos os dias. Sobretudo naqueles nos quais seu cheiro faz questão de ser onipresente. Mas tenho que esquecer. E por quê? Porque você insiste em não olhar o melhor de si mesmo e aceita as migalhas de pães que têm te oferecido como banquete. Quem sou eu para te julgar? Não sou eu mesma que me inclino e aceito, com sorriso nos lábios e coração disparado, as migalhas que me oferece? Sim. Aceito e me sacio. O pouco seu é o muito que me sobrepuja.
Rápidos somos em julgamentos. Indique-me uma só falha de
caráter que não provenha da fraqueza. Fato é que somos ridículos. Pulhas.
Indignos. Mais miseráveis do que qualquer dicionário seja capaz de qualificar.
Ou um psicólogo. Ou psiquiatra. Ou psicopata. Não, este último me entenderia.
Os suicidas.
Tenho o sorriso benevolente dos que deram cabo a si mesmos.
Sei que a fraqueza em última instância é capaz de trincar o próprio espelho.
Penso muito sobre isso. Sobre como a fraqueza nada mais é que a confissão do
mais alto narcisismo. Só alguém que se ama demais, que se poupa demais, que se
guarda demais é capaz de se deixar fraco. O fracote nada mais é que um
orgulhoso.
E eu sou assim: fraca. Derramo-me em ti como se fosse a
única possibilidade. A única saída. Mas nada, entrego-me vez após vez porque a única coisa que penso é em meu saciar.
Ouvindo: Elephant Gun
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