terça-feira, 3 de novembro de 2009

33 graus.

Que horas eram? Olhou a tempo de ver Cuauhtlehuanitl. Arrastava-se num infinito de areia, simetricamente sem forma, o rosto salpicado de areia fina. Confundia suas formas… a areia era uma extensão de si mesmo.

O Sol ardia em sua pele. Por que parara ali? Como havia se perdido dos outros? Agora tudo não era mais que uma névoa, algo muito difuso, uma linha tênue entre a memória e a realidade.

Quando tivera a ideia brilhante de fazer essa viagem? Esse arroubo de aventurismo? Não passava de um bancário, porque se metera nisso, meu Deus!

Agora encontrava-se ali, com Helios sob a sua cabeça, no auge do seu poder, oprimindo-o, dilacerando-o.

Fixava seus olhos ao longe, à espera da caravana salvadora, mas ela não aparecia, não vinha, não o salvava.

Conseguia sentir o mormaço, aquela presença esmagadora do calor, já não podia mais consigo mesmo, foi quando viu um falcão. Um falcão? Era a vertigem, não havia outra explicação, um falcão gigante, imponente, acima do bem e do mal. Era Atum zombando dele, da presunção de pisar em um terreno que absolutamente, não era o seu.

Começou a sentir a areia se movendo, o que era aquilo à frente? A areia escorria em aspiral, desesperado ele corria na direção contrária, tinha que ser rápido ou seria engolido, iria escorrer junto com a areia para aquela ampulheta sem fim.

Conseguia ouvir as asas do falcão batendo, era o som das gargalhadas dadas por .

Queria um enigma, algo que pudesse mudar sua sorte, “Decifra-me ou te devoro”, ele seria capaz de resolver… queria uma esperança.

Deitou–se de costas para a areia, olhava o céu límpido, claro, sem nuvens, viu Apolo com seu carro majestoso cortar o céu, ficou horas a olhar.

Então, viu Cuauhtemoc desaparecer.

Murmurava 33 graus, 43 graus, mil sóis, enquanto procurava o cantil de água.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

a saga

Atravessou a rua sem olhar para os lados. Foooooom, pula para trás. Não enxerga não, pô? Ai que caramba, não vou conseguir catar todas as miçangas...Pega lentamente as miçangas da pulseira que arrebentara. Atravessa a rua agora usando a faixa de pedestres. Oi Dona Maria, minha mãe tá aí? Tá sim fia, Ôôô Fátima.

_Que que foi? Ô Luiza, se for dinheiro nem precisa pedir...

_Pô mãe, todo mundo vai lá na casa do Fabin, só que vai pedir lanche, que quieu faço? Vô fica olhano?

_Problema seu, por  mim nem ia.

_Porra meu, por isso que não gosto de fala nada, toda vez é isso aí, tenho que fica mindigano.

_Quanto cê quer?

_Uns 10 mango.

_Cê acha qui cai du céu?

Pega o dinheiro que a mãe lhe dá. Sai correndo pela porta.

Já na rua olha o dinheiro desconfiada, era uma nota só, mas vai que sua mãe tentou lhe passar a perna. Nossa, se eu não comer nada dá pra eu usar uns três dias. "Estranho seria se eu não me apaixonasse por você, o meu allstar azul combina com o seu, de cano alto..." Olha para os próprios pés, e vê seu tênis, desgastado, desbotado e emprestado, pelo menos oficialmente, tinha surrupiado o tênis do primo há 2 anos, no começo ficava grande, agora já estava apertado.

Atravessa outro quarteirão, pára em frente a padaria, aspira por alguns momentos o cheirinho de pão que exala lá de dentro, Ô coisa boa, podia gastar só um pouquinho...Balança a cabeça como que para afugentar a própria ideia, como se não pudesse ceder àquilo, como se fosse pecado...

Estava ofegante, não podia perder tempo, já sabia como funcionava, podia até atrasar um pouco, mas havia um limite e se não chegasse a tempo…

Soejaievhis. O que?

Alguém, já não distinguia sexo, idade, cor, simplesmente alguém que pedia a ela alguma coisa, uma moeda, um salgado que ele(a) já não comia há três dias, tinha 3 filhos pequenos para criar… Não tenho trocado, não. Continua em direção ao seu objetivo.

Vira mais uma esquina, pronto, lá estava ele, majestoso, imponente, cheio de si: o teatro.

sábado, 3 de outubro de 2009

Olimpíadas 2016

Comentando no blog de um queridíssimo sobre as Olimpíadas:

 Li na uol.com que o Brasil investirá 14,4 bilhões nas Olimpíadas, será que já está incluso o "sossega-leão" que terão que dar no Comando Vermelho?


Será?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

À margem dum soneto.

E se não bastasse
a máscara vestir,
subiu ao palco,
satisfeita em representar-se,
se posiona no centro da luz gerada pelo refletor.

Para uma plateia que ali não estava,
declama seus poemas
com o ânimo exaltado
as mãos movimentando-se em pausas e medos.

Deixa uma lágrima escorrer com dramaticidade.
Sorri um sorriso tolo,
treme os lábios e
num gesto de desespero: geme.

E como uma personagem que se esgota,
que cumpre sua sina enquanto criação,
enclina-se
agradecendo aos aplausos inaudíveis.

Apaga-se a luz.

Maya Andrade