terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Para que a escrita nos salve


Porque escrever está ligado a caráter, até. Não me parece possível que um babaca completo seja um escritor pois há qualquer coisa de digno na escrita. A afirmação é deveras perigosa porque não são poucos os escritores que foram estranhos, esquisitos, fracassados, que deram provas de irremediável falta de caráter. E talvez a ambiguidade resida na própria escrita pois não me parece tampouco que a escrita se eleve a esse grau olímpico. A escrita é, por natureza, marginalizada (o simbolismo foi e sempre será o calcanhar de Aquiles da literatura).


A falta de caráter é uma questão apenas cultural. 
A falta de caráter é apenas cultural?

Ser estranho, esquisito e fracassado pode ser uma questão de prisma. O eterno “segundo quem?”. Seja como for, que se cultive a escrita. As pessoas me parecem melhores quando escrevem.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Elephant Gun

          


Não que te esquecer adiantasse. Não. Esquecer-te só apagaria uma parte boa. Uma parte que faço questão de lembrar todos os dias. Sobretudo naqueles nos quais seu cheiro faz questão de ser onipresente. Mas tenho que esquecer. E por quê? Porque você insiste em não olhar o melhor de si mesmo e aceita as migalhas de pães que têm te oferecido como banquete. Quem sou eu para te julgar? Não sou eu mesma que me inclino e aceito, com sorriso nos lábios e coração disparado, as migalhas que me oferece? Sim. Aceito e me sacio. O pouco seu é o muito que me sobrepuja.

Rápidos somos em julgamentos. Indique-me uma só falha de caráter que não provenha da fraqueza. Fato é que somos ridículos. Pulhas. Indignos. Mais miseráveis do que qualquer dicionário seja capaz de qualificar. Ou um psicólogo. Ou psiquiatra. Ou psicopata. Não, este último me entenderia.

Os suicidas.

Tenho o sorriso benevolente dos que deram cabo a si mesmos. Sei que a fraqueza em última instância é capaz de trincar o próprio espelho. Penso muito sobre isso. Sobre como a fraqueza nada mais é que a confissão do mais alto narcisismo. Só alguém que se ama demais, que se poupa demais, que se guarda demais é capaz de se deixar fraco. O fracote nada mais é que um orgulhoso.

E eu sou assim: fraca. Derramo-me em ti como se fosse a única possibilidade. A única saída. Mas nada, entrego-me vez após vez porque a  única coisa que penso é em meu saciar.



Ouvindo: Elephant Gun

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Das coisas como são


Porque eu ainda queria você aqui. Porque ainda sinto o cheiro do seu suor. O peso do seu corpo cansado sobre o meu. Porque mesmo querendo dizer adeus, a frase que sai é fica mais um pouco. Porque sei fazer de cor o contorno das suas mãos. Porque todas as minhas músicas preferidas serviram de fundo para o nosso amor. Porque eu ainda quero mesmo sabendo que não deveria. Porque é difícil pra cacete. Porque seu cabelo é sedoso e pesado e escorregava entre os meus dedos como se tivessem crescido apenas para esse propósito. Porque eu vejo alguma sinceridade em seus olhos. Porque eu não sei explicar. Porque eu não posso mais e não vou. Fim.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Luzia-criança

                                      

Luzia brincava com um cacho dos cabelos. Enroscava no pequeno dedo indicador e depois soltava. Via o vai e vem da mola. Uma mola suave e castanha que pulava e continuava aos saltitos até parar. Passar o fim de semana na casa da avó era sempre uma lacuna, um espaço a ser preenchido nos seus dias já chatos de criança na escola. Se bem que achava a Tia Mariana uma ótima professora e gostava dos desenhos que ela fazia. Chato mesmo, de verdade, eram os traços que tinha que copiar e que falavam para ela que um dia viraria letra. L-E-T-R-A, letra letra letra letra letra..brincava com as palavras como mais velha continuaria fazendo, só que por escrito.

Correu para o balanço. O balanço de corda nada tinha a ver com o que tinha no parquinho da sua casa. Lá era feito num cercado de areia onde ficava tudo junto: o balanço feito de ferro, o escorregador em 3 tamanhos e um gira-gira. Lá era chato. Chato e seco. Mamãe dizia que era a parte do condomimio destinado a área de recleação. Não entendia. Sabia que não era como o balanço da vó, que tinha um cheiro gostoso e tinha a sombra boa da árvore.

Um passarinho estranho, não desses coloridões que ficam nas gaiolas, mas um pássaro branco e preto, que ficava de pulinho em pulinho, sem habilidade nenhuma para andar mas muita para voar, foi espreitá-la. Girava a cabeça de um lado ao outro. Luzia o imitou. Que quer, passarinho?

O passarinho deu alguns saltitos e quando ela pulou do balanço para pegá-lo, ele voou. Guardou essa cena na gaveta da memória e só a retirou muito tempo mais tarde, em uma aula de Literatura, quando a vozinha há muito já tinha ido voar com o passarinho preto e branco.

*uma homenagem ao Dia das Crianças
*e a Luna Sanchez que sempre me lembra que já passou o tempo de eu postar   =)