terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Filme: Jogo de Cena - Um jogo de metalinguagem.


A grande inquietação do filme é a metalinguagem. Discutir os limites da interpretação, do olhar, da figura do espectador, e do diretor. Quem interpreta, revive ou recria? Já não há um parâmetro seguro para determinar quem é a personagem e quem é o ator, mas mesmo o ator é ator ou personagem? É uma personagem que finge ser ator interpretando uma personagem real? No entanto como dizer real? Ser personagem não carrega em seu bojo a característica de ser ficção?

O documentário longe de trazer soluções, problematiza. E o que se vê é um diretor-maestro que quando se posiciona no centro do palco também vira personagem; o diretor Eduardo Coutinho é uma personagem de um diretor brasileiro chamado Eduardo Coutinho que está produzindo um documentário, é mais uma vez nos vemos às voltas com a metalinguagem de um documentário mostrar – fazendo – o que é fazer um documentário.

No filme há apenas projeções. Reflexos de personagens criados no momento da fala da pessoa física, denominada pessoa real. O diretor parece rir da concepção de eu-liríco quando faz a própria pessoa ser personagem de si mesma. Mas quem é o real, quem é o ortônimo? Mas o ortônimo não é também uma personagem?

O documentário cíclico termina com a cena de um auditório que se projeta de tal forma na tela que o que se tem é uma extensão do próprio auditório onde a plateia se encontra; e os espectadores se veem dentro da cena, personagens de si mesmos, personagens de um público.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Soneto do quem sou eu, que não diz nada sobre isso.

Em tempo, ou não, eu retirei o velho

texto copiado, de apresentação.

Não que deixara ele de ser digno,

apenas não me era mais benigno.



E agora esse novo, também em verso

faço-o para que, embora tergiverso,

meu visitante assim se entretenha,

com a mais bela arte do universo.



Não tenho a infinita pretensão

de igualar-me, ou perto chegar

d'aquele que me fez inspiração



ainda que com muita veneração

e na rima e métrica caprichar,

trago então à luz, esta aberração.


.:Gustavo:.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Entre linhas e posts

    A vizinha do apartamento do andar de baixo já tinha ligado para o síndico 4 vezes! Não aguentava mais ouvir a gritaria que vinha do 216. Um inferno. Enquanto o casal do 216 se acusava, gritavam um com outro, esmurravam a parede e chutavam almofadas. Ainda não tinha partido pra porrada porque sobrara algum vestígio de respeito, mas estavam a beira disso.
    Ela desenterrava as brigas dos primeiros meses de namoro, não havia frases que não começassem com "Você lembra aquela vez...?", e ele passava as mãos no cabelo nervoso, a ponto de arracar de si mesmo os cabelos da têmpora. Por fim ele disse que não dava mais, que a amava muito, mas que não era só de amor que se construia um relacionamento, que havia outros fatores...
    _ O que foi? Agora você vai me dizer que eu não sou boa de cama, é isso?
    _ Nossa! Como você é histérica, não entende nada nunca, não é?
    _ Ah...agora sou burra? Não entendo nada?!
    Tentava enxugar as lágrimas que escorriam pelo rosto.
    _ Chega! É ínutil, vou pegar minhas coisas, tô indo embora. Vou pra casa da minha mãe, e acho melhor a gente não se falar por agora, é melhor esperar as coisas esfriarem.
    _ Falou em frio é com você mesmo.
    _ Sem sarcasmos, não vamos nos machucar mais.
    Foi até a cômoda, pegou as roupas que mais usava, enfiou tudo na mochila de acampar, mais alguns pares de tênis, foi buscar a escova de dentes no banheiro. Ela vai atrás dele.
    _ André, não faz assim, vamos conversar, a gente pode se acertar - tentou sorrir - afinal de contas, quem não briga? Não é mesmo?
    Ele pega as últimas coisas, anda pelo apartamento para conferir se não esqueceu nada muito importante.
    _ Tchau - beija-lhe a testa -, a gente pode ser feliz ainda. Mesmo que sozinhos, talvez apenas sozinhos.
    Fecha a porta deixando a chave no aparador. Ela enconsta-se na porta, chora copiosamente, escorrega até o chão, fica lá por alguns minutos, horas talvez. Se levanta, pega um vinho que já estava aberto na geladeira, liga o note. Entra no Amor de papelão e passa um longo tempo lendo, enquanto acaba com a garrafa ao lado.
    Com o rosto já seco, a queixo apoiado na mão, termina de ler o último post.
    _ Não derramo nem mais uma lágrima, aquele canalha nunca me mereceu! Nunca escreveu um recadinho desses pra mim, nem em papelão, guardanapo, nem nada!
    Procura o celular entre as almofadas.
    _Alô? Carlos? É...faz tempo...
   

domingo, 20 de dezembro de 2009

Um paradoxo,
ei-lo.
Quero desvendar-lhe as pétalas,
despojar-lhe o pólen, agarrar-te pelo caule
e rancar-te a raiz.
Se movo as asas rapidamente,
se desesperadamente as bato,
é para alcançar-te,
chegar ao miolo, o bico.
Para sentir-te.
Aspirar-te.
Para espalhar pelos ares o poder da germinação.