Tirou lentamente o violão da capa, metodicamente, sem pressa. Abriu o zíper como quem despe uma virgem. Colocou o instrumento sobre o colo, abaixou a cabeça levemente inclinada e começou a afiná-lo.
Sentada em um monte de almofadas ela o olhava enquanto ele ritualmente afinava o violão. Reparou em seu jeans surrado. Ao lado dele uma pequena fonte escorria água sem sossego. Seus olhares se encontram. Pronto, o violão estava afinado.
Ele começou a tocar enquanto ela fazia o que mais gostava: admirá-lo. Dedilhou alguns sambas, tocou algumas bossas, e depois… sem que soubesse o porquê, ele tocou um rock antigo, segurava firmemente o braço do violão enquanto com o próprio braço o abraçava pelo meio, na altura das cordas, não com o ombro apoiado no instrumento, mas com o ombro atrás dele, e essa cena a inflamou.
A água borbulhava na fonte.
A cada batida que ele dava no violão era como um toque em seu corpo. A velocidade impressa por ele na música imprimia em seus sentidos, o desejo.
Levantou-se de onde estava e foi até ele, começou a afagar-lhe os cabelos, passar os dedos em sua nuca, parou com as mãos no ombro por alguns instantes, abaixou-se um pouco e deslizou as mãos pelas costas. O sentiu arrepiar.
Não parou a música, que era a maneira dele retribuir os carinhos. No entanto, a música parecia cada vez mais frenética, e já não sabia se o que ele tinha no colo era o corpo do violão ou o seu próprio.
Os corpos tremiam, as cordas vibravam e o som assonante ecoava pela casa.
Deu a última nota.